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Aside

 

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                                     A BALA, O BISCOITO E A FLOR DE LÓTUS

Eu me lembro de um tempo em que as formas, as cores e os sabores dos produtos não estavam desvanecidos na entropia promovida pela sociedade de consumo. Dentro desse tempo, minha memória recorta um momento particular em que pedi a minha mãe uma bala; enquanto ela pegava essa bala numa prateleira que, para mim, era alta, eu me sentei a um canto, fruindo o instante de espera; e recordo o sorriso de minha mãe ao me ver ali, quieto, concentrado para o simples e pleno desfrute de uma bala.
Eu não estava sentado na posição de lótus, mas a imagem dessa postura, própria à prática da meditação, sempre me ocorre junto com a memória dessa cena. Tanto a postura quanto a cena me reconduzem a Thich Nhat Hanh.
A postura de lótus me reconduz a Thich Nhat Hanh, pois ele é um monge budista vietnamita que conheci através do livro “Vietnã, flor de lótus em mar de fogo”, da Editora Paz e Terra. Entre permanecer meditando no mosteiro ou ajudar seu povo que sofria sob o bombardeio e outras devastações perpetradas pelo exército norte-americano, Nhat Hanh foi um daqueles que escolheram fazer as duas coisas, ajudando a fundar o movimento de “budismo engajado”. No Vietnã ele criou uma organização assistencial de base popular que reconstruiu vilarejos bombardeados, fundou escolas e centros médicos, restabeleceu famílias sem lar e organizou cooperativas agrícolas. No exterior, Thich persuadiu Martin Luther King a se opor publicamente à Guerra do Vietnã, ajudando, dessa forma, a reanimar o movimento pela paz. No ano seguinte, Luther King o indicou para o Prêmio Nobel da Paz e, depois disso, Nhat Hanh liderou a Comissão Budista nas Conferências pela Paz em Paris.
A cena da bala me permite a intertextualidade com esse texto de Thich Nhat Hanh que encontro agora em seu livro “Paz a cada passo”, da Editora Rocco:
“Quando eu tinha quatro anos de idade, minha mãe costumava me trazer um biscoito cada vez que voltava do mercado para casa. Eu ia então para a frente de casa e levava um bom tempo para comê-lo, às vezes meia hora ou quarenta e cinco minutos para um biscoito. Eu dava uma mordidinha e olhava para o céu. Depois, roçava o cachorro com meus pés e dava mais uma mordidinha, Eu simplesmente gostava de estar ali, com o céu, a terra, os bambuzais, o gato, o cachorro, as flores. Conseguia agir assim porque não tinha muito com que me preocupar. Não pensava no futuro, nem lamentava o passado. Estava inteiramente no momento presente, com meu biscoito, o cachorro, os bambuzais, o gato e tudo o mais.”          
E Thich conclui: “Talvez você tenha a impressão de ter perdido o biscoito da sua infância, mas eu tenho certeza de que ele ainda está aí em algum canto do seu coração. Tudo ainda está aí.”        
                                                    

                                                               Afonso Guerra-Baião                                           

DIÁLOGO DE NATAL

DIÁLOGO DE NATAL

            Carlos Drummond nunca gostou de Academias, mas agora vive na eterna happy-hour da Sociedade dos Poetas Mortos, onde eu, como sócio-leitor, o encontro sempre. E, como aprendiz de feiticeiro, busco a sabedoria tão bela desse mago. Para puxar conversa, lembro um verso de outro bruxo, o de Cosme Velho: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. E acrescento: – O Natal não é algo do passado, silenciado pelo nosso ruidoso comércio, ofuscado pelo brilho de nossas festas? O poeta me diz: – O Cristo é sempre novo, e na fraqueza desse menino há um silencioso motor, uma confidência e um sino.

Mas meu coração de estudante quer saber mais. Pergunto: – Como pode o Cristo nascer entre pessoas que se movem pela competição, que se guiam pelo egoísmo, que buscam mais o ter que o ser? Calmamente, o mestre me explica que o Cristo “nasce a cada dezembro e nasce de mil jeitos. Temos de pesquisá-lo até na gruta de nossos defeitos”.

            Meu coração, que não se cansa de ter esperança, banca o advogado do diabo: – Em meio à mediocridade, à corrupção, à demagogia, ao nepotismo, à desonestidade, ao corporativismo, pode o Cristo nascer e sobreviver? Sem piscar Drummond responde: – “Ministros, deputados, presidentes de sindicatos prosternam-se, estabelecendo os primeiros contatos”.

Meu coração é teimoso: – Como poderá o Cristo falar a todos, nas nossas sociedades hierarquizadas, formalmente democráticas, de fato autoritárias, fechadas em círculos excludentes de classes e de castas? Na resposta tão serena quanto rápida, o poeta disse que o Cristo “preside (mal) as assembléias de todas as sociedades anônimas, anônimo ele próprio, nas inumerabilidades de sua pobritude”.

Meu coração vagabundo não dá trégua: – Como pode o Cristo sobreviver se nasce pobre, sem terra, sem teto, condenado à marginalidade? E ouço a voz de Carlos: – “Ele tenta renascer a cada hora em que se distrai nossa polícia, assim como uma flora sem jardineiro apendoa, e sem húmus, no espaço restaura o dinamismo das nuvens”.

Meu coração, que quer guardar o mundo, insiste: – Como a mensagem de amor do Cristo vai florescer num mundo de acirrados radicalismos? O mestre não vacila : – “Sua pureza arma um laço à astúcia terrestre com que todos nos defendemos da outra face do amor, a face dos extremos”.

Represento, por fim, o inquisidor moralista: – Como o Cristo pode nascer em corações mundanos, materialistas, devotos de bezerros de ouro e do prazer? Antes de desaparecer com o portal que se fecha, o poeta responde: – “O Cristo vem numa cantiga sem rumo, não na prece”.

Enquanto eu desço do Tabor, meu coração bate um pouco mais feliz.

                                                    Afonso Guerra-Baião

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